O moralismo e a geleia na corrida

São Silvestre, problemas na organização, pipocas, ética na corrida. Falei muito sobre isso por aqui ultimamente, escrevi até duas vezes no jornal impresso. Achei que tivesse esgotado o tema, mas o confrade Roberto Corcioli me mandou um email que pede uma reflexão a mais. Ele se referia especificamente à minha crítica aos corredores que passavam sua inscrição para outros, configurando “falsidade ideológica”.

“Caro Sérgio, na boa, se não estamos falando de profissionais – e nem também de “amadores performistas”, que buscam índices, etc -, qual é o problema de um amigo (que se vê diante de um imprevisto e não poderá correr) passar a inscrição para outro? O problema não estaria na organização das provas que, no geral, não aceitam a transferência “legal” de inscrição e tampouco o reembolso?
Duas questões me chamam a atenção: essa escalada do discurso punitivista, moralista, e a “criminalização” do sujeito, corredor amador, que participa por diletantismo e sem qualquer intenção (ou mesmo possibilidade, ante seus humildes tempos) de fraudar resultados, frente a uma defesa quase apaixonada das “organizações”, que cobram valores cada vez mais absurdos para uma prática esportiva que deveria remeter à liberdade, à simplicidade… E essa mesma lógica não se restringe ao pequeno universo das corridas de rua, claro.São os tempos que estamos vivendo. Cabe escolher para qual direção queremos correr.”

Boa, Roberto. Bem argumentado, bem defendido o seu ponto de vista. Sobre o tema da organização, sou insuspeito: há muito tempo critico a forma como a São Silvestre é organizada. Qual o problema de se passar por uma outra pessoa se isso “não prejudicaria ninguém”? Na realidade, o problema está na infinita flexibilização das regras. É uma característica latina e o brasileiro, nesse aspecto, é latino pra cacete! Adoramos adaptar regras gerais conforme nossos entendimentos individuais. O sinal está vermelho, mas não vem ninguém do lado de lá. Que mal haveria em furá-lo se não vou atropelar ninguém? Vaga de deficiente. Tem duas, está tudo lotado, qual a probabilidade de chegarem dois na hora que vou parar? E é rapidinho, não demoro.

A regra da corrida é simples. Você se inscreve, paga (caro demais, concordo, Roberto), ganha kit, número de peito, medalha. Seu nome aparecerá depois na classificação final. Quando alguém corre por outro a classificação por sexo e faixa etária se altera. Você não acha relevante isso, Roberto? Pois eu também não acho, mas e se alguém que é amador competitivo e treina o ano inteiro acha? Ele não teria o seu direito ferido? Tem gente que passa sua inscrição por camaradagem. Mas pode ter alguma sacanagem. O barrigudinho passando seu número para o amigo veloz para crescer em sua assessoria esportiva. Você acha que esses cretinos não existem? Lamento informá-lo, tem gente assim, amadores que cortam caminho também.

Outros passam a inscrição para pagar menos. Os aposentados que viram “laranjas da corrida”. É a mesma falsidade ideológica. Regras gerais servem para todos. Quanto mais as flexibilizamos, mais nos empapuçamos nessa geleia ética brasileira.